segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Capítulo 2

Capítulo 2
“Diário de John S.
21/02


Depois de alguns momentos de comemoração, falei ao pequeno professor, que olhava com grande interesse para meu rosto no Videofone. “Professor, você mencionou outras pessoas procurando o tesouro... Quem seriam?” O velho me sorriu um sorriso desdentado, e explicou “Na verdade, sempre houveram pessoas que vinham atrás de nós. Sabe, seu antepassado era uma pessoa bem... incrédula. Demorou muito para aceitar sua situação, então muitos acabaram conhecendo sua história. Dizem que ele acabava bebendo e chorando suas mágoas, acabando por contar tudo sobre as sementes e a sereia - menos o local do tesouro, a Sereia não deixava. Quem tentava forçá-lo a falar também acabava se dando mal de alguma maneira.” Ele pausou. “A história acabou virando uma lenda famosa entre os navegadores locais e passou de geração em geração. De vez em quando apareciam alguns caçadores de tesouros para ver se era verdade ou não.”

Isso me acalmou, mas o sossego durou poucos segundos, já que o velho continuou, com o rosto agora pensativo: “Nos últimos dias apareceram outras pessoas. Eram diferentes dos que eu já tinham visto. Pareciam mais profissionais. Eram como...” ele apontou para Alfa e Beta, aparentemente só agora notando suas presenças. “...como seus amigos aqui. Pareciam que estavam trabalhando por dinheiro, não pela aventura.”

A situação começava a se tornar preocupante. Alguém com dinheiro sabia do tesouro e estava atrás de mim. Perguntei mais para o Professor a respeito da identidade dos agentes, mas ele não soube me dizer mais nada, nenhuma informação útil. Seguimos viagem, deixando para trás a vila e o Professor, que se recusou a ser recompensado pelos seus serviços. Utilizando um jipe, meus agentes logo alcançaram o local indicado na dica, trilhando diversos caminhos irregulares, estradas de terra, entre outros. A viagem foi rápida e sem incidentes.

Conforme nos aproximávamos, podíamos ver uma encosta- o campo terminava subitamente, vários metros acima de pedras e do mar que batia com força contra elas. Dificilmente alguém que caísse sobreviveria, mas já não havia o risco: meus agentes, especialmente Beta, eram treinados em escaladas em ambientes urbanos e selvagens. Prepararam seus equipamentos e em questão de minutos já se penduravam pelo lado da encosta. A entrada da tal caverna já estava tomada por plantas e parcialmente coberta pela terra, mas ainda era facilmente vista como uma boca do lado da encosta. Tive a sensação de que era engolido pela terra conforme assistia com minhas câmeras a viagem dentro da caverna.

Com a retirada das plantas, parte da luz do dia penetrava na caverna, que, no final, à luz da lanterna de Beta, mostrou-se um tanto pequena. Dentro localizamos uma pequena alavanca, no meio da sala, assim como alguns desenhos na parede. Eram extremamente detalhados para as condições locais, o que levantou algumas questões sobre a participação da Sereia - que, aliás, mostrava-se no centro da ilustração, entre homens, sementes, plantas e diversos símbolos que não consegui identificar.

Alfa olhou ao seu redor, finalmente dando de ombros e, sem nenhuma palavra, deu um puxão na alavanca metálica, que fez um estalido alto antes que eu pudesse gritar algo para impedi-la. Mas nada aconteceu. Ficamos em silêncio por alguns momentos.

“Ouviu isso?” perguntou Alfa. “O que? Não ouvi nada.”, respondi. “Ouvi” disse Beta. “Meus ouvidos também estão apitando.” Confuso, continuei ouvindo a conversa. “Quando seus ouvidos apitam em um local fechado”, continuou Alfa, “quer dizer que houve uma mudança na pressão do ar.” Mal terminou a frase e a resposta surgiu - um dos painéis na parede deslizou lentamente para o lado com um ruído grave. Por trás dele, uma caverna que mal caberia uma criança se abria, sua porta já quase totalmente aberta. Do pouco que pude ver, outras portas se estendiam no decorrer do pequeno túnel. Não pude ver por mais tempo, pois uma massa negra começava a sair do túnel - morcegos.

Centenas, milhares de morcegos encheram o pequeno recinto com o bater de asas pretas e guinchos agudos. Alfa e Beta lutavam para afastá-los enquanto eu assistia impotente pelas câmeras em suas roupas e pelo videofone, que Alfa no momento utilizava para afastar o maior número possível de morcegos. Um grupo furioso chocou-se contra ela, fazendo-a tropeçar próxima da entrada e lançando o videofone fora de alcance, até cair nas rochas abaixo da entrada da caverna. Eu tinha que pensar em alguma coisa. Pressão... Morcegos... Morcegos emitem sons de alta freqüência. Alta freqüência... Dizem que o grito das Banshees e o canto das Sereias possuem freqüências especiais que lhes garantem propriedades mágicas... Era isso! “A Sereia!” gritei. Alfa ainda se debatia no chão, mas Beta reagiu rapidamente, empurrando a imagem da Sereia, que deslizou levemente para dentro. Nesse momento algo emitiu um som agudo que doeu até os meus ouvidos. Algo me dizia que havia algo naquele som que não devia ser perceptível por seres humanos, já que os morcegos pareceram enlouquecer e debandaram pela entrada da caverna ou pelo túnel que vieram.

“Outra vez, a Sereia aprontando uma das suas.” disse eu, vendo pelas câmeras ocultas Beta se encostando na parede e Alfa resmungando no chão. Lentamente, Beta virou para a parede. “Aí está a próxima pista.” Ao afundar, a imagem da Sereia deslocou todos os desenhos misturados, revelando uma mensagem oculta. Mais um desafio vencido.

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