segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Capítulo 1

Capítulo I
“Diário de John S.
15/02

Recrutei dois de meus melhores agentes, cujos nomes manterei ocultos para segurança de todos. Na verdade, ainda não entendo qual a necessidade de tanto mistério sobre a busca, mas a Sereia insiste, em meus sonhos, que a busca pode ser perigosa (acho incrível como já me acostumei com esses sonhos absurdos).

Alfa tem 25 anos e é uma ex-policial. Atualmente trabalha como detetive particular, ocasionalmente fazendo serviços freelance para conglomerados e grupos, governamentais ou não. Beta tem 47 anos e é um especialista em tecnologia e sobrevivência norte-americano. Seus serviços são freqüentemente empregados para treinamentos especiais para o FBI. Os dois foram deixados por uma equipe no local onde acreditamos que seja o início do mapa de meu avô. Gostaria que tivéssemos um X marcando o local, mas ao que parece teremos que ir seguindo as pistas que encontrarmos.

No momento estou mantendo contato direto com Alfa e Beta, ao mesmo tempo que posso assistir ao vivo sua busca por câmeras ocultas em suas roupas e equipamento. A Sereia aparentemente acompanha o progresso deles, seja lá como for (magia?) e parece satisfeita com nossos esforços.

O ponto inicial do mapa nos levou a uma pequena vila pesqueira na costa brasileira. É um local bem simples e pobre, sendo que rapidamente Alfa e Beta foram reconhecidos como estranhos. O local não é exatamente popular pelo turismo, o que levou a certa desconfiança dos nativos. Meus agentes não deram tanta atenção a isso, sendo que Alfa logo insistiu para entrar no bar para “descobrir alguma coisa”. Por mais cliché que isso seja, não consegui impedí-la, e logo estavam Alfa e Beta sentados no bar bebericando algo que preferi não saber o que era.

O estabelecimento era miserável. Eu podia quase sentir o cheiro da madeira quase podre de meu escritório, mas a idéia de Alfa se mostrou boa quando o dono do bar, um homem gordo, caolho, com os cabelos brancos e arrepiados, nos deu informações valiosas. Beta, que estivera em silêncio o tempo todo, perguntou se ele conhecia bem a região, se podia fornecer alguma informação sobre o passado da vila. O homem gordo olhou-o com curiosidade mas disse que não saberia ajudar muito, afinal “não era muito estudado”. Porém, indicou um casebre que ficava do outro lado da vila, onde supostamente um professor de história vivia. Seu sobrenome era... Rosa? “Algo assim. Nome de flor. Ele não aparece muito. Esqueci.”

Imediatamente Alfa e Beta cruzaram a vila. Todas as casas tinha o mesmo aspecto - madeira velha, aparência simples. Moradias de quem tem pouco dinheiro e pouco ânimo. Logo pudemos ver a casa do Professor - era a mais afastada do mar, e, talvez por isso, a em melhores condições, o que não quer dizer muito. Beta bateu na porta, mas foi Alfa que falou: “Professor? Está aí?”

Esperamos alguns minutos, sem ouvir som algum da casa. Beta bateu novamente. Nada. Alfa colou o ouvido na porta. “A casa não está vazia. Tem alguém aí dentro sim. Devo arrombar?”, me perguntou. “Claro que não. Não somos selvagens. Aliás, nem temos um mandado policial, seria contra a lei. Ligue seu Videofone.” Impaciente, Alfa ligou seu Videofone. Liguei para ela, agradeci e pedi que virasse-o para a casa. “Professor, meu nome é John Starbucks. Represento um grande conglomerado internacional de cafeterias. Não desejamos nenhum mal para você ou os habitantes desta vila. Só precisamos de sua ajuda.” Silêncio. Seja lá quem estivesse lá, não queria conversar. Não me dei por vencido. “O senhor sabe algo sobre sereias?” Desta vez o silêncio durou poucos segundos, até que a porta abriu alguns centímetros e um pequeno vulto surgiu. “É você, então?”

A porta se abriu lentamente. Um homenzinho pequeno, muito velho e curvado, apoiava-se em uma bengala rústica. Em seu nariz acentuado equlibrava-se um óculos grosso, fosco e gasto. Ele mancou até a direção do Videofone segurado por Alfa, ignorando ela e Beta. Parando com os olhos próximos a tela, que exibia meu rosto, ele forçou os olhos, depois arregalou-o e gritou com a voz rouca “É você mesmo!” Me perguntei por um momento se nossa única pista seria um velho senil, mas logo vi que estava enganado. “Ela me falou sobre você! Ela me mostrou! Entre! Vamos conversar!”

Minutos depois estávamos dentro da casa. Alfa e Beta ainda eram quase sempre ignorados, enquanto sentávamos na sala de estar do Professor. “Então... Professor Rosa, ‘ela’-- “CRAVO”, disse ele, me interrompendo. “Professor Cravo.” “Mil perdões, Professor. Quando o senhor disse ‘ela’, se referiu à Sereia?” Ele piscou e me encarou como se a pergunta fosse a mais idiota que já tivesse ouvido. “Mas é claro! E quem mais seria? A Sereia já falava ao meu pai, meu avô, o pai dele, e o pai do pai, e o pai do pai do pai, e o pai do pai do pai do pai--” Interrompi-o antes que ele continuasse. “Certo. Quer dizer que não é só a família Starbucks que tem sonhos com a Sereia.” “Exatamente. Mas se bem que os meus começaram a pouco tempo. Acho que foi no começo do mês.” Beta comentou de seu canto: “Foi quando o senhor encontrou o diário.” Ele tinha razão.

Com um aceno de cabeça e um sorriso vago, Professor Cravo continuou. “Meus antepassados guardavam uma mensagem. Era uma grande rocha na praia que havia sido esculpida. A Sereia pedia que sempre que a mensagem se desgastasse, que talhássemos outra pedra para que ela não fosse perdida. Nós não podíamos seguir as instruções da mensagem. Era um acordo - nós teríamos pesca e chuva em troca de respeitarmos e mantermos a mensagem viva. E todos cumpriam. Uma vez ou outra alguns garotos tentavam seguir o que ela dizia, mas só se perdiam. A Sereia só deixaria a pessoa certa ir atrás daquilo.”

Me animei, levantando-me do escritório como se isso fosse nos aproximar mais do nosso objetivo. “O senhor pode nos levar até a pedra?” O velhinho deu de ombros. “Claro. Sem problemas.” Acompanhamos o Professor por alguns momentos, até que Alfa, irritada com sua lentidão, colocou-o nas costas e correu até a praia, seguindo suas instruções. Chegando lá, seguimo-o até algumas rochas no canto sul da praia. “Era aqui”. “Sério? Pra mim parece tudo igual.”, comentou Alfa indiferente. “É uma pena. Com o tempo, meu pai parou de cuidar da pedra pela sua idade, e eu nunca tive condição física para trabalhos manuais, pois sempre fui doente. A mensagem da pedra se perdeu...” revelou o Professor tristemente. Por alguma razão, eu não me senti desanimado. Alguma coisa estava incerta, alguma coisa estava diferente... Eu ouvia alguma coisa...

“Alí!” gritei, sem notar a altura que havia falado. Todos se assustaram, menos o Professor. Eu apontava para uma pedra, especificamente em meio a um grupo aparentemente idêntico. Eu podia ouvir algo quando olhava para ela. Uma canção. Era a voz da sereia. Devagar comecei a notar algo como uma aura de luz, verde, azul. Alfa se aproximou com o videofone. “É ela”. O professor começou a emitir um som rouco, ritmado, e demoramos alguns segundos para descobrir que ele não havia se engasgado - estava rindo. “É você mesmo! É você com certeza! Não importava quantos viessem aqui falar comigo, a Sereia dizia que só o verdadeiro poderia identificar a pedra. Só pode ser você.” Sorrindo, o professor abriu uma velha carteira de couro, de onde tirou um grande papel desgastado e dobrado. “Foi de propósito que deixamos a mensagem se desgastar. Tome, aqui está. Estávamos te esperando a muito tempo.”

Finalmente havíamos conseguido a primeira pista! A busca iria continuar, mas só uma coisa me deixou apreensivo: quem seriam as outras pessoas que também procuravam o tesouro?”

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